19 outubro 2017

O Óbvio*

(*Não, o poema abaixo não foi composto em função dos temporais desta madrugada, pois foi escrito dia 17.)

escritor

é quem percebe o óbvio:
nada é mais difícil de perceber
do que está diante de nossos olhos

se colocarmos a página de um livro
muito perto de nosso campo de visão
não conseguiremos ler

dito isso
qualquer criança sabe
que após um tempo de muito calor e seca
de condições climáticas estéreis
de crescente pressão atmosférica
em que o abafamento o sufoco a opressão
se tornam insuportáveis
o resultado inevitável
são tempestades temporais tormentas tremendas
caos pânico destruição
mas que sem essas tempestades
a vida não poderia continuar

mas não se percebe que é por algo do tipo
(só que muito maior)
por que passa a humanidade

a isso chamamos "O Óbvio"

de modo que
em tudo que escrevo
estou explicado

17 outubro 2017

Líquido

vendo Bosch
ouvindo Brahms
lendo Dante
não sei se o que escorre
é lágrima
ou vinho
ou sangue

15 outubro 2017

(Re)conheço

o que me resta de alma
mal dá pra cobrir
um vão do ente
do meu ventre em vão

e vão todas as gentes
no vácuo do (des)humano
a vagar para o abismo
ano após ano
asno após asno
ismo após ismo
sem saber de si mesmo

reconheço que desagrado
e que não toco
nenhum vão do que se sente
com meu taco em não
(e os outros pensam que o são...)

reconheço que me degrado
cataratas de sangue e caos
e outras quedas e tals

é o que se chama Evolução?
então fico com minha busca
(como quem dirige um fusca)
por um resto de consciência
no que me fiz Decadência

12 outubro 2017

Bebida Forte

I - a poesia
(pelos olhos)
é pouco lida
porque exige
(pela alma) 
muita lida

II - em termos de poesia
as pessoas
preferem os eventos
já eu               
ao termo da poesia
prefiro os ao ventos

III - a poesia é vida
e onde há vida
há morte

poesia
também pode ser festa
mas com bebida forte

10 outubro 2017

Ninguém melhora Ninguém

I - não escrevo
para que os outros me leiam
me entendam me decifrem

escrevo
para eu fazê-lo
com os outros

II - não escrevo
para melhorar ninguém

(só o si
melhora a si
quando cai em si)

escrevo a meu ser
que saindo da miséria que sou
se vá além do que sei

III - ser poeta
é perceber
que não se percebe
é dar-se conta
de que não se dão conta

08 outubro 2017

da Rebeldia Brasileira

rebeldes com causa
sem causa
ou rebeldes com cauda
de rato?

rebeldes com calda
açucarada
de leite
de saco

rebeldes com causa?
rebeldes com calça
frouxa
frouxos
trouxas
engolindo os reais
(que dizem ser o real)

rebeldes arcados
alcaides
com o peso do desprezo
do preço...

rebeldes sem calça
com o saco
sem bolas
coçando
e com o saco
dos ricos
puxando

(Poema reelaborado e republicado)

06 outubro 2017

Após Humanidade

o meu verso é de sangue e decadência 
pela percepção viva do que morre 
como se o peso de um cósmico porre 
tivesse elevado a minha consciência 

o meu verso é de alarme e de iminência 
pela percepção óbvia do que (o)corre 
a visão do desabe de uma torre 
além filosofia além ciência 

eu sinto em um após humanidade  
queda da noite que me dura um século 
e sinal da anímica liberdade 

da morte se entende que a alma é círculo 
nada a se dizer a não ser o que há-de 
em meu sangue há catástrofe e espetáculo

03 outubro 2017

Manchetes (anti)Poéticas para os Jornais Contemporâneos (ou Contemporários)

I – Extra! Um modelo de carro a mais
e uma espécie de bicho a menos

II – Nova descoberta da ciência
causa nova encoberta da consciência

III – Tecnologias de última geração
condenam espécies à sua última geração

IV – Robôs quase humanos
são desenvolvidos para tomar o lugar
de humanos quase robôs
e vice-versa

V – Seção Autoajuda:
para conhecer o valor do Bem
possua um bem de Valor

VI – O Ministério da Saúde adverte:
quem pensa não é feliz.
Mas se for pensar, não escreva.
Se for escrever, não pense.

01 outubro 2017

Vida Corrida

I – o homem transformou a vida
numa corrida
em que nunca chega a nada
e nada nunca chega:
enquanto ainda corre a uma chegada
chega a hora da partida

II – pensando só em notas
e não ouvindo nota alguma 
o homem deixou de notar as almas:
só se passa pelos seres
só se cruza nos lugares
e não se nota viva alma
e assim se passa a todo da vida
e não se leva nota nenhuma

III – o caminho da existência
corrido
percorrido
concorrido
não-vivido:
corremos mas não fomos
existimos mas não somos

28 setembro 2017

Na Seca, a Tempestade é a Luz

se você quer da arte só o beijo e não o soco
se quer só o belo e não o chute
se quer só o sonho e não o sangue
se quer só o certo e não o medo
se quer só o leve e não a morte

se você quer arte para se sentir bem
para ser agradado agraciado acariciado
para se manter na sua zona de conforto
para seguir cômodo na sua frívola visão da vida
e prosseguir satisfeito com seu sorriso estúpido
e nunca ter abalos nas suas certezas toscas...

então você não quer arte
você quer autoajuda:
vá ler augusto cury
vá pagar por palestras motivacionais
vá lamber o microfone de um pastor
ou vá para casa
brincar com sua caixinha de esperanças fodida

26 setembro 2017

O Sartorão do Deboche

Esta humanidade é uma piada cósmica. Dentro desta piada, o Brasil ocupa o papel de protagonista. É a piada da piada. E na sigla PMDB, P é de Piada e D de Deboche. O resto vocês podem imaginar. Temer e Sartori são os maiores piadistas da piada que são o Brasil e o RS do PMDB. O governo Sartori é um oceano de nada onde flutua um excremento gigante. Tal excremento é o DEDOCHE. Tudo o que o governador faz é um DEBOCHE. Não há palhaço maior. Se duvidam, acompanhem:

Sua campanha eleitoral foi um DEBOCHE. Não havia ( e ainda não há) proposta nenhuma, mas foi eleito. Enganou dois terços dos "politizados" gaúchos. Um DEBOCHE! 

A letra do Hino Rio-Grandense, com Sartori, virou um DEBOCHE dos gaúchos.

Ver o Sartori falando de seu governo nos dá sempre a impressão de que ele ou não sabe bulhufas do que fala ou está rindo da cara do povo gaúcho. Seja como for, é um DEBOCHE. 

O seu parcelamento dos salários do funcionalismo público, por si só, já é um DEBOCHE. Ao pagar 350 "pila" no fim de agosto aos funcionários, seu DEBOCHE atingiu o estado máximo.

E, por DEBOCHE, ele ainda afirma que não há salários em atraso.

É um DEBOCHE que Sartori ostente que ele e seus secretários irão agora receber por último. Por DEBOCHE, esquece de mencionar que ele e vários de seus secretários recebem EM DIA como deputados "aposentados".

ANTES dos parcelamentos, num DEBOCHE, aumentou seu próprio salário, o do vice, dos secretários, dos deputados e dos juízes.

É um DEBOCHE que ele tenha elevado impostos ano passado argumentando que era para acabar com os parcelamentos. Até que um dia, ele paga R$350,00.

Enquanto afirma que não tem dinheiro em caixa, seu governo promove uma orgia de isenções fiscais e nada faz para combater a sonegação, que ultrapassa os 7 BILHÕES de reais ao ano no RS. Puro DEBOCHE.

E ainda, por DEBOCHE, perdoa dívidas de empresários "amiguinhos".

Mandou os professores pegarem seu piso na Tumelero. DEBOCHE?

Quando há protestos de grevistas, Sartori e seus asseclas do circo, mandam a PM, que também recebe parcelado, por DEBOCHE,"surrar" os manifestantes.

A "solução" que Sartori apresenta, por DEBOCHE, é diminuir vagas nas escolas para aumentar nos presídios. É o DEBOCHE de Victor Hugo, quando escreveu: "Quem abre uma escola fecha uma prisão."



Enfim, Sartori transformou o Rio Grande no caos de uma pintura DE BOSCH.

Seu governo é tão incompetente que não saberia administrar um partida DE BOCHA. Alguém deveria lhe dar um (DE)BOCHAÇO!

E tem gente que ainda defende seu governo. Só pode ser por DEBOCHE.

Ah, e ia esquecendo, Sartori quer a reeleição...






24 setembro 2017

As Pessoas Passam

as pessoas passam todo dia na espera
de que o dia passe 
para ter no resto do dia
um descanso como resto 
mas já estão tão cansadas 
que nem descansam 
do que não fizeram 
e nem fizeram 
o que valesse a pena descansar 
(seja de bem seja de mal) 

as pessoas passam toda vida na espera
de que a vida passe 
e etc e tal...

22 setembro 2017

Derrame meu Vinho

eu, que não controlo nem o que passo
mas penso controlar meu destino

eu, que não domino nem o que penso
mas brinco a escolher meu caminho

eu, que não entendo nem o que sinto
mas sonho em entender o divino

eu, que não alcanço nem o que sonho
mas sinto que me posso sozinho

eu, que não desejo nem o que busco
mas julgo que satisfiz meu desígnio

eu, que não matei nem a minha sede...
bom, ao menos não derramei o meu vinho